Tempo de migração


Tirei a roupa ignorando botões, sintaxe e conceitos. Tantos anos esperando o homem e o desejo não permitiam prefácios, prólogos ou jogos de azar. O corpo saltou vibrante e o som do desejo pairou no ar. Dizendo, cantando, gritando. O quarto encheu-se do cheiro proibido – adultério premeditado.
Os olhos dele pregaram-se nos seios que arfavam. Duas acusações sumárias a sua ausência medrosa. Ele que sonhara noites infindas com o todo-infinito via-se ali preso a dois círculos concêntricos a oferecer-lhe o prazer de uma tarde. Uma tarde era tudo o que eu tinha. Mas o que era o tempo quando o desejo me tomava de uma forma tão completa que o corpo pendurava-se entre o divino e o profano.
Mãos, bocas e urgências caíram sobre ele. O macho subjugou-se às vontades da fêmea raivosa do desejo contido. Os lábios sussurraram todos os palavrões guardados nas gavetas que o tempo de espera empilhou dentro de mim. Não havia carinho. Nem amor. Só carne. E sangue gritando nas veias. As minhas unhas abriam caminho em sua pele, alternando salvação e perdição. Entre as pernas, o cântico expectante de mãos beijando pêlos e umidade, sussurrando no intumescimento de um clitóris expectante.
O som estridente do telefone entrou pelos ouvidos dele. Enervou-se debaixo de mim. Ouvindo apenas meu próprio desejo obcecado, prendi-o com pernas, braços e dentes. O telefone insistiu. Metálico, insensível, contundente, dilacerando todos os planos construídos ao longo de tanta espera.
O macho naufragado nas profundezas do mar que o tragou, debateu-se até vir à tona. Em cada pupila o brilho do diamante falso. Medo. O suor escorrendo por seu rosto lavou meu desejo. O frio escorreu dentro de mim levando todos os sonhos. O homem descortinou-se à minha frente. Era apenas um homem. Da espécie mais comum. Espécie que se cobre com as folhas de parreira por medo de se engasgar com a maçã.
Empurrei-o e entreguei-lhe o telefone. Sentei-me e me vi refletida no enorme espelho que cobria a parede. O corpo brilhava ainda com o desejo represado. Num profundo esforço de vontade, ignorei o corpo tenso sentado à beira da cama e entreguei-me a mim mesma. Lentamente minha mão fechou-se em concha sobre os pêlos da pelve. Em movimentos circulares, a outra acariciou os seios. Pouco a pouco o corpo ganhou o ritmo da febre que o devorava. Independente do corpo antes sonhado, me desmanchei em gozos sucessivos sobre a cama.
Séculos depois, já renascida, abri os olhos. De pé a minha frente, desejo em riste, o homem olhava-me como um sobrevivente de alguma guerra santa. Seus olhos brilhavam como se querendo queimar a minha pele. Calmamente, saí da cama. Olhando-o nos olhos e calando-lhe as palavras, vesti-me. Em gestos lentos, saí.
Bati a porta do passado e olhei o bando de andorinhas voando em formação triangular. Fazer o verão em outras paragens – era o tempo de migração.

Conto publicado no livro Letra Crua na Pele Nua

Interlúdio



Esbarrar nele todos os dias fazia mal a minha pele. Eram arrepios tão profundos que os poros se abriam incontinentes. Olhá-lo nos olhos, nem pensar. Não sabia o que ele causava em mim, como deixar que ele soubesse? Naquela dia foi assim. Portas do elevador se fechando e suas mãos forçando a entrada. A violência do perfume me nocauteou. Espremida na parede, virei uma coisa qualquer. Sem outra vontade senão a de que o chão se abrisse e meu corpo flutuasse infinitamente pelo poço do maldito elevador. Detesto homens perfumados. Detesto homens empertigados. Detesto este homem. Mentira! Este homem arrasa com a minha estrutura. Boa noite! Se respondi não me lembro. Nem qual foi o movimento seguinte. Meus olhos se arrancaram do chão e desvairaram pelo rosto bronzeado a minha frente. A boca carnuda (cobriria a minha como as luvas que nunca tive) sorriu irônica. Filho da puta. Sabia que me ansiava com sua presença insolente. Minhas unhas doeram a palma da mão. As pernas viraram falsete. Meu anjo da guarda, dourado como o sol, suave como a lua... Merda. Eu não tinha mais nada infantil. Nem oração. Não via seus olhos, mas sabia-os levantando minha saia. A pulsação sob as calças já era visível. A calcinha preta apertou-se contra mim. Enfiada entre as carnes fazia latejar a progesterona nos meus não menos túrgidos membros internos. A mão dele nos botões da parede hipnotizou meus olhos. Parou. Parou? Vai me beijar. Corpo enrijecido, tranquei as pálpebras. A língua tremeu na expectativa da outra língua. Me invade a boca, cretino. Enfia sua língua entre meus dentes e respira a minha excitação! Quero morder seus lábios, te deixar quente e seja o que deus quiser! Invadida foi a saia. Sob ela uma mão se esfregou na calcinha. Lentamente dedilhou lábios, pêlos e pele, colhendo minha entrega felina. A mão em concha entre minhas pernas e o dedo dançando no úmido das minhas cavidades me empurraram ainda mais na parede. Perdão meu Deus. Juro, juro que faço uma novena. Virei líquidos misturados. O xixi comprido, bendito, sagrado. E o caldo quente do gozo lavando a dor das entranhas. Como puta que encontra o primeiro amor, dei-lhe a boca, os seios, o ventre. E as mãos dele, lambuzadas de mim, passearam entre sua boca e meu corpo. Lambuzou dedos, chupou, lambuzou de novo e acariciou com os lábios os mamilos. Tesos, eles se projetaram marrons entre os dentes do homem que eu mal conhecia. Quando o grito ia se soltar na minha boca, a porta se abriu. Deu as costas e saiu. Lambi, suguei, engoli o perfume que ficou ali. E saí para a via crucis de catalogar as contas do meu rosário de loucuras.

Conto publicado no livro Letra Crua na Pele Nua

Reencontro



Bastou  um  telefonema e uma excitação correu-me o corpo. Na carne, aquele tremor de antecipação. Menos de dezoito horas para a preparação emocional. Preferia que fosse apenas meia hora. Tempo para pensar era um sério risco de novamente fugir. Venci os séculos em que se transformaram estas poucas horas, numa estóica determinação: eu quero!
O grande Espelho caiu a minha frente. Nele vi a outra, aquela que fui no desespero de amar. Cabelos desgrenhados, pele suada, olhos de cadela explodindo em cio e o corpo largado nos lençóis rasgados de amor. Ele ao lado, afagando a memória recente de um grande amante, o homem que conseguiu domar os instintos predadores da fêmea. Não foi amor o que acontecera na cama. Fora pecado rasgado e absolvido no fluxo incandescente que regou as peles e marcou as carnes como entre si pertencentes.
As imagens se moveram e o negativo da fotografia nada mais era que o passado cobrando do presente a realização da fantasia maior, aquela que fora mansamente acariciada no sussurrar do tempo. Como se esse tempo estivesse devendo o que entre as minhas pernas gritava para desaguar.
Sob a água do chuveiro a realidade caiu morna. E o afagar das mãos no corpo fremido era antecipação do desejo explosivo que corroia as entranhas de todas as lembranças – do que foi e o que deixou de ser. E estas mesmas mãos acalmaram a revolução das borboletas colhendo em seu bojo o suco primeiro como um colostro que antecipa o jato do alimento quente em boca faminta.
Ao primeiro olhar, minhas luzes se acenderam. Até aquelas que eu supunha não mais existirem. O secreto das minhas emoções saltou a nossa frente. Eu as escondia. Ele escrevia no rosto o quanto me queria. Eu, o amor que queria sublimar o ato. Ele, o amante que há muito se entregara ao inevitável de estar definitivamente ligado a mim. Nele eu me desvestia do poder da deusa. Em mim ele se vestia de paixão. Eu era a fervura em suas veias. Ele a passarela das minhas emoções.
Entre céu e inferno iniciamos a construção de mais um elo na corrente que nos prendia um ao outro. Um abraço sem beijo. Como se fosse imprescindível juntar as batidas do coração. Depois, o engolir de um e outro na busca de cobrir os anos de separação. Florestas desbravadas, subimos os montes que nos levaram à lua. E quando nada mais existia além do eterno, caímos nas cascatas espumosas da saciedade. Exausto, rezou às estrelas. Alimentei-me do gosto da sua exaustão.
A manhã seguinte nos pareceu uma enorme mentira. A realidade não era mais que uma fantasia onde teríamos que pendurar mais uma despedida. De real, a saudade com que teceríamos os dias que guardariam nossos desejos. Sem tristezas, porque com a certeza de que em algum outro dia nos reencontraríamos.
Inevitáveis, apenas os nossos sonhos.

Conto publicado no livro Letra Crua na Pele Nua

Prelúdio



Após um dia difícil no trabalho, resolvi dar uma volta na pista do parque. Precisava cicatrizar algumas feridas e recolocar a vida em outros trilhos. Ao passar por uma construção, ouvi exclamações e assovios. Ainda perdida em pensamentos, olhei sem ver um grupo de homens sentado na guia. Um par de olhos verdes cresceu à minha frente. E me paralisou. Por segundos aqueles olhos prenderam os meus, irremediavelmente. Tonta, apressei o passo. Há tempos não me sentia desejada. Sabia-me bonita, mas evitava olhar nos olhos de outro homem que não fosse aquele que deveria chamar de meu. Com esforço, segui em frente. Mas algo mudara com aqueles olhos. A cabeça ficou altiva, os ombros para trás e senti o corpo bamboleante. O coração iniciou um bater frenético como uma borboleta amedrontada.
Sentiu-o ao meu lado. Assim, de repente. Os olhos verdes atrevidos e penetrantes. Ele percebera a reação do meu corpo e começara a seguir-me. Tensa, nada fiz além de fingir ignorá-lo. Pensei em minha mãe e m seus conselhos quando eu ainda era uma adolescente. Lembrei-me de todas as promessas feitas ao altar. Tentei uma oração, mas não consegui passar da segunda frase.
O homem virou voz. Voz que falava de desejos em palavrões, voz que mexia terrivelmente com tudo em mim. Voz que entrava no corpo e virava arrepio na pele. Aumentei o ritmo dos passos. O coração virou gazela espavorida. E o corpo, traiçoeiro, pedia a voz.
A tarde virou noite e encontrou-me numa cama de hotel. Hotel de centro da cidade. Cama de lençóis rústicos e cortinas de um azul usado. Cheiro de roupa lavada com sabão barato. Ao meu lado, um corpo moreno - puro músculos e cheiro de cio. Mãos calosas passavam carinhosamente sobre meu corpo. Uma voz carregada de sensualidade falava baixinho de amor. Os olhos verdes agora me olhavam carinhosos e amantes. Eu o olhava e gostava de olhar. Não sabia mais quem eu era. Sentia-me uma espiral infinita. Como se fosse volátil e pairasse rodopiando sobre mim mesma. O corpo tinha um ardor constante. Doía lá dentro. Tanto que me entreguei. Tomou minha boca como se dele fosse desde sempre. Dentes mordiscando meus lábios, língua provocando língua, o cheiro de cio entrando-me pelos poros. Minhas unhas responderam riscando suas costas, enquanto os dedos reconheciam o poder dos músculos. Estava felina. Os arrepios iam e vinham. No sangue, a excitação corria um passo atrás do jorro de adrenalina. Senti-me visceralmente líquida. E com uma vontade louca de derramar-me sobre ele.
Era a primeira vez que eu morria e vivia convulsivamente. Um gozo atrás do outro. A língua dele colhendo pequenos jatos, as mãos se alternando nas minhas cavidades e o cheiro do meu cio revolucionando ar e vontades. E eu, amante. De dentes, língua, corpo. Como nunca fora.
Deitada em seu abraço, me senti verdadeiramente amada. Embora tivesse me transformado numa fêmea de puro instintos e ali imperasse a libido, nunca me sentira tão amada. Aquele homem soubera amar cada gemido, cada espasmo, cada grito saído de mim. E me fizera sentir generosamente fêmea.
O som do celular jogou-me na realidade. Uma vergonha impiedosa me fez correr para o banheiro. Vesti-me apressada e voltei ao quarto. Sem olhar os olhos verdes, tirei da carteira uma nota e estendi a ele. Da cama, ele apenas me olhava. Mudo. Tranqüilo. Moreno. Olhei-o. Um sorriso brincava em seus olhos. Com uma inacreditável secura na boca me senti novamente paralisada. Aquele homem tinha o poder de me transformar. De fazer nascer em mim uma avidez de vida como nunca sentira. Devagar ele estendeu a mão. Ignorando a nota, fechou os dedos em meu pulso. Sem forçar, começou a acariciar a pele com o polegar. Olhos prendendo olhos. Os grilhões estavam ali. Naquele insondável mar verde-esmeralda.
Percebendo o desespero em meus olhos soltou meu braço. Mas seus olhos continuaram prendendo os meus. E eu ali, parada, trêmula, completamente desconcertada. Lentamente ele se levantou. No instante seguinte eu o mordia, beijava, agarrava. E ele era apenas a fortaleza que me mantinha ainda em pé. Por pouco tempo. Até o chão receber nossos corpos. E todos os cantos daquele quarto serem batizados com o nosso ardor. O tempo parou e jogou no passado os véus da educação cristã. Fêmea de um animal qualquer, era tudo em que me transformei.
Muito tempo depois, desci as escadas. Lágrimas teimosas molharam meu rosto. Não era choro de arrependimento. Nada em mim se arrependia. Em passos lentos, atravessei a rua e fiz o caminho de volta para casa. Volta à vida onde meu corpo não cabia mais. Nem meus conceitos. O homem que deixara no hotel, eu nunca mais veria.  Mas dele jamais me esqueceria.  

Conto publicado no livro Letra Crua na Pele Nua

Ao acaso


Hoje o vinho escorre manso entre meus seios: fio comprido, cor de âmbar, fazendo poça entre meus pêlos. A boca, beirando a vulva, à espera - língua comprida e quente vigiando as gotas, fazendo cócegas em minha pele. Meus olhos perdem-se através da janela. Ausentes do ato, presentes na memória. No passado o vinho foi denso. Rubro, escorreu pela glande lambuzada dos meus desejos. As mãos aparando golpes no ar em krav-magá imaginário. A sessão de nefastas estocadas fazendo coro em minhas pupilas dilatadas. E o gozo folgando os nós do estômago faminto de emoções. Hoje o vinho chega aos lábios dele. Forasteiro do meu corpo, guardião provisório dos meus mais baixos instintos. A pressão na veia ressoa oca em meus ouvidos. As carnes abertas tremem como dançarinas bêbadas prendendo a cabeça contra o volante. O estacionamento do supermercado não fecha. Outros machos heteros passeiam entre fêmeas reluzentes de desejos fingidos. Os lábios se juntam nas gotas translúcidas prendendo a dor fina em meio aos meus pêlos. O teto solar aumenta as estrelas pálidas. Mãos apertam minhas ancas de égua no cio. Ontem ele era nada, agora cavalo indomado arrancando a relva molhada. Vejo sua nuca e orelhas. Sem ver a boca deságuo vinho num orgasmo bêbado. E fico livre. Envio-lhe meu olhar desconhecido e a depressão atmosférica. Vai chover. E o supermercado já está fechando. Vou buscar bifes e batatas. Chuto o cachorro morto antes que o vômito me tome. Tranco o carro. Amanhã comprarei champanhe.

Entre quatro paredes, prazer é o limite





Toda musa tem seu muso. Pensando assim é que olhei mais uma vez a foto colorida que sorria para mim. Pensei nos tantos poemas que os olhos verdes inspiraram. Poemas não escritos, mas poemas declamados pelas mãos sobre o corpo febril. Foram muitas as noites em que, solitária por opção, eu o tive em minha cama. Agora iria provar o cheiro, o gosto e o arrepio da pele.
Meu primeiro olhar foi amplo. Embora enfeitiçada pelos maliciosos raios verdes, as coxas grossas e o peito largo cresceram à minha frente. Meu decote, já um tanto alargado pelo arfar da expectativa, quis romper-se com o intumescimento dos mamilos. Aquele era O homem. Exatamente como o fantasiei, eu o teria. O tempo na mesa do restaurante durou menos do que eu gostaria. Ambos tínhamos pressa, independente das motivações. Eu era a anfitriã e havia reservado a ele a melhor das surpresas.
Ao chegarmos à suíte, ela já nos esperava. Elegante, sóbria e quase tranqüila. Olhou-nos, demorando-se nele. Dei vivas à minha intuição – eles seriam o par perfeito. O olhar dele passeou entre eu e ela, um tanto surpreso, outro tanto excitado. A calça jeans deu sinais de suas urgências. Busquei em mim o tesão por ela. Havia apenas o desejo pelo que ainda me era inusitado.
Taças nas mãos, nos espalhamos pelo quarto. Eu os queria juntos. Sentei na borda da banheira apenas observando os gestos – não me interessavam as palavras trocadas. Intui: ele não sabia por onde começar. Lentamente levantei-me. E ainda mais lentamente fiz o vestido escorregar pelo meu corpo. Cantarolando Janis Joplin, passeei minha semi-nudez aos olhos dos dois até sentar-me entre eles. Entreguei a ela os preservativos e me virei para ele.
O beijo foi profundo, insidioso, longo. Seu cheiro entrou em mim arrasando defesas e destruindo planos. A cama nos recebeu como se nunca tivéssemos saído de lá. Atordoada pelo gosto daquela boca, senti um beijo quente correr pelas minhas costas. As mãos dele arrancaram meu sutiã. As delas, minha calcinha. A sensação era de estar entre dois dínamos que me transformariam em líquido escorrendo sobre a cama.
Quando eu já nem mais me sabia viva, renasci. Renasceu comigo o controle, os planos, o tesão renovado. Eu queria ser servida. Eu os queria meus servos. E os tive como quis. Ele na sua resistência de macho-controlador só fez aumentar o potencial dos meus desejos. Ela, deixando aflorar todo o tesão por mim - reprimido, guardado, escondido durante todos os anos em que trabalhamos juntas – entregou-se às minhas vontades. Amamo-nos tanto, tanto e a vizinhança nem desconfiou de tanta felicidade – diria Chico Buarque.
O trio se desfez ainda no quarto. Eu o levei ao hotel sabendo que ele ainda me queria. Desta vez, ter-me completa e unicamente. Dei-lhe o telefone dela - a mim pouco importava o que ele queria ou faria. Meu tempo com ele terminara. Dele eu queria apenas as melhores lembranças. Dela, a camaradagem de sempre. O que acontecera entre nós já estava no passado. E passado era apenas o grande livro das experiências que embasavam a construção do meu presente.

Vôo no escuro

Éramos dois solitários na imensa solidão de uma sala de bate-papo. Eu, buscando enfeitar os buracos de um momento tedioso. Ele, mascarando a solidão de uma segunda-feira. Resolvi pegar pesado. Cortei as apresentações e fui direto à proposta. Um encontro no escuro. Literalmente. Ele engasgou na demora para responder. Louca – eu me supus no silêncio dele. Louca, queria ser. Embarcou na minha loucura. E o encontro se fez no dia seguinte.

Às 10 da manhã, fui recebida num quarto escuro de um flat que reservei. De imediato, apenas o sentido do olfato. Cheiro de pele. Mãos grandes e silenciosas me puxaram. Senti a parede apertando meu corpo e outro corpo nu invadindo meus sentidos. E o sexto sentido iniciou a comunicação. Era o homem. O que eu queria: forte, ousado, ladrão.

E veio o beijo. Devagar a princípio. Os lábios percorrendo a boca. As línguas brincando uma com a outra. O cheiro dele, misturado a um perfume que eu não conhecia, molhando abundantemente minha calcinha. Sentia a rigidez de seu sexo pulsando contra o meu corpo. Meus instintos reagiram. E a fêmea se soltou em dentes, língua e gemidos.

Com um movimento brusco, me virou. De frente para a parede, senti sua urgência cantar nas minhas costas e a boca prender a nuca. Ele sabia como domar uma fera. Desmanchei-me contra a parede enquanto as roupas me abandonavam. Meu desejo se entregou e seus braços carregaram minha nudez. Agarrada em seu pescoço, rosto grudado em seu peito, me deixei ser devassada pelo tesão.

Literalmente me jogou sobre a cama. Surpresa e estranhamente submissa, esperei o próximo passo. Nunca antes eu dera a um homem aquele poder. Senti o peso do seu corpo marcando o colchão. Enrijeci. Virei corda de um violino afinadíssimo. O coração batia nas pontas dos dedos. De repente, meu cérebro gritou um alerta: o preservativo. O corpo não queria se desprender, já era apenas instinto. A razão insistia em ser pragmática e desmancha-prazer. Entre as duas forças, gemi. Com a língua passeando em seu ouvido, sussurrei-lhe a necessidade da segunda pele. Ele não se abalou. Magicamente colocou em minha mão algo gelatinoso e frio. Estava dando a mim a liberdade de escolha.

Nunca fui boa em lidar com camisinhas, sempre me atrapalhava. Mas o momento exigia meu esforço. Escorreguei a mão entre nossos suores. Encontrei-o duro e pulsante. Enorme. Tanto em largura quanto em comprimento. O medo, ainda inexplicável, e o tesão redobraram. E minha mão tremeu. Eu não conseguia acertar a glande e fazer deslizar o raio da desmancha-prazer. Depois de algumas tentativas, rosto ficando afogueado, me decidi pela boca. Fui descendo pelo corpo, fazendo um caminho de língua e saliva. Os lábios se fecharam naquele monumento. Devagar, fui sentindo seu gosto antes de colocar entre os dentes sua capa solidária. E virei fêmea no cio.

Não nos amamos. Comemo-nos. Fodemo-nos. Entre gemidos, mordidas, gritos e, de certa forma, uma violência contida, engolimos um ao outro. Tudo muito rapidamente como a cheia de um rio em busca da desembocadura. Em pouco tempo estávamos jogados sobre a cama. Exaustos. Um ao lado do outro. Olhei ao redor. Apenas escuridão. Fixei os olhos onde deveria ser o teto. E agora? Que homem é este que me transforma em fêmea faminta de suas iniciativas? Como serão seus olhos? De que cor serão seus cabelos? O sentido da visão estava nas mãos. E foram elas que novamente percorreram o corpo ao meu lado. Lentamente, viram cada nuance. E viram cada músculo se contraindo à sua passagem.

Ainda no comando, segurou meus braços e puxou-me sobre o corpo. Com as pontas dos dedos acariciou meu rosto. Lentamente. Carinhosamente. Saí da aura de magia daquela respiração. Escorreguei corpo abaixo e num movimento felino pulei fora da cama. Não tinha a menor idéia de onde estava o interruptor, mas percebi onde era a janela. Abri as cortinas.

Nada na figura dele me surpreendeu. Eu já o sentira gaúcho de todas as formas. Apenas o olhar era novo. olhar de quem prometia o que sabia cumprir. E foi assim o clima das horas restantes: cumplicidade, carinho e tesão. E foi o mesmo clima dos dois anos seguintes em que Minas e Rio Grande fizeram uma ponte. De amor intenso e muita paixão.

E o verbo se fez carne...


Fora amor. Destes que prescindem de tradução. Amor marcado de pequenos escândalos internos – explosivos detonados pelo olhar e amansados na dança de falo e fenda. Fora amor gritado no arrepio das peles e na expectativa do mergulho profundo à essência do cio que nos fazia felinos. Fora amor rabiscado com giz em estradas mal-traçadas e apagados de vidas que nunca se encontrariam.
Explodi-me. De amor e de desencantos. Estive viajando em vendavais de areia. O rosto ficou fustigado e a carne indelevelmente marcada. Porque escolhi dunas como convinha àquela irritante e romântica e sedenta vontade de amar. Os sentimentos caíram nos restos de lava – cinzas do amor que inventei entre as capas do livro que não escrevi.
Passei um tempo dentro de mim. Revi conceitos, brinquei de esconde-esconde com a alma, fiz fotos e fatos dos sentimentos. O resultado final não foi ao meu favor. Eu me vi em negativo, preto e branco invertidos, e me assustei com a imagem não querida. Um susto que de tão grande me trouxe de volta à superfície da vida sonhada.
Reagi. Saí alice das maravilhas e caí fractal de todos os espelhos que consegui inventar. Comecei pelo decote. Aquele decote imenso me mudou. Meus seios expostos quase por inteiro. Nada de apenas sugerir. Transformei-os na maçã da concupiscência. E nem me importou que a avidez estivesse em olhares marginalizados. Precisava me sentir puta. Da espécie mais baixa. Queria tirar de dentro a santa que cultivei durante o tempo do amor. Queria rasgar suas vestes e apedrejá-la com minhas vontades mais sórdidas. Estas vontades que só viram palavras quando despidas de toda moralidade cristã. Ou quando vestidas da rusticidade lúbrica de um marinheiro após mês e meio no mar.
Reinventei a verdade, a minha verdade. Fiz do corpo meu instrumento de prazer. Pura e unicamente. Prazer meu e prazer dos meus escolhidos. Nenhum suspiro de amor. Nem olhos que não vêem. Nem historinhas bem contadinhas como peças de quebra-cabeça de imagem conhecida. O tempo agora era de frisson correndo pela carne e explodindo em todas as bocas. Tempo de meninos e meninas na orgia dos sentidos. E de reinações sobre mim e meus pudores idiotas.
Não me divorciei do Amor. Guardei-o para intervalos auspiciosos. Os intervalos em que corpo e alma se encontram inadvertidamente no piscar da insanidade. Mas nada é para sempre. Nem o amor.
Assim surgi-me deusa – inventada ou reinventada das festas de Baco para florescentes orgias pagãs dos tempos modernos. Deusa que convive, prepotentemente, com todas as minhas personas cristãs.

A dama e o vagabundo


Fomos apresentados por uma amiga comum. Sr. P. era um homem bonito, de olhar instigante e aquele jeito de carioca – largadão e sedutor. Eu não estava à procura de um macho, mas após uma breve e inusitada conversa, minha libido se assanhou. Percebendo a corrente elétrica que passava entre nós, ela deixou-me entregue à experiência e malícia daquele homem que transpirava masculinidade e ousadia. E foi com este belo espécime da raça masculina que cheguei àquele apartamento - confortável, mas carente de mãos femininas. Um autêntico e verdadeiro esconderijo de garras e instintos felinos!

Gentil e fino, o Sr. P me ofereceu vinho. Sentamo-nos. Um frente ao outro. Era uma tarde fria. Minha pele estava arrepiada – parte pelo frio, parte pelo tesão que a situação exalava. Eu ainda não estava completamente à vontade, mas jamais deixaria que ele percebesse a minha timidez. Uma deusa – era assim que eu queria ser lembrada – não se deixaria escorregar nos terrenos da inibição. Enquanto saboreava o vinho, sem me esquecer de passar a língua devagar pela taça, olhava-o do jeito mais sedutor que o espelho havia me ensinado. E pensava em todas as possibilidades que aquele belo físico estava me abrindo. Um frisson foi tomando meu corpo. E o desejo apagando a expressão de inocência com que, propositalmente, me apresentei a ele. Se percebeu, ele não demonstrou. Olhava-me como se eu fosse única e ele existisse apenas para me dar prazer. Um cafajeste, na mais profunda acepção da palavra.

Ainda escondendo a mistura de inibição e excitação, perguntei-lhe sobre os brinquedinhos que usava em suas sessões de sexo. Tranquilamente, naquele andar largadão que me fascinava, ele se levantou. Minutos depois voltou com cordas, algemas, consolos, algumas peças de roupas e mais alguns objetos que ignorei. No primeiro momento apenas olhei. Eu ainda estava me decidindo se tomava a iniciativa ou me entregava àquele felino irônico e excessivamente cônscio de seu poder. Instintivamente, percebi nele o desejo de me dominar. Antecipei-me e assumi o comando. Com voz doce, mas firme, pedi que se despisse e prendi-lhe as algemas. Com mãos ágeis tracei desenhos com a corda em seu corpo. Ele não se abalou. Olhou-me divertido como a esperar pelas minhas pobres tentativas de submetê-lo. Neste momento, decidi: eu o teria aos meus pés. Testei-o com insultos. Ele continuou impassível. Sua figura toda mexia comigo. Em especial aquela impassividade irônica e um tanto prepotente. Profundamente mexida, vesti a minha personagem preferida: virei deusa inescrupulosamente exigente.

Com a outra corda, amarrei-lhe testículos e falo (como era avantajado o instrumento daquele Sr. P!) e puxei com toda força. Sorri ao ouvir seu gemido surpreso. Passei a ponta da corda por entre suas pernas e amarrei-a em sua cintura, por trás. Vi em seus olhos os primeiros brilhos de tesão. Ele estava muito próximo de perder o controle. Como um tigre faminto que vê a carne pelas grades de sua prisão.

Completamente imobilizado, mandei que entreabrisse os lábios. Sem aviso, mordi-lhe o lábio inferior, suguei, mordi novamente, até senti-lo pulsando desesperadamente. Era o sinal que eu esperava. Devagar me afastei dele. Com gestos lentos e sem tirar os olhos dos seus, minha roupa foi caindo, peça por peça. Os bicos dos meus seios estavam duros e por entre as pernas eu já sentia a umidade da expectativa. Ele me chamou sua puta gostosa. Bati-lhe na bunda com toda a força do meu tesão. Mandei-o calar-se e comecei a explorar seu corpo.

Peito peludo, pêlos negros e macios. Minhas unhas fizeram um caminho avermelhado por entre eles. Minha boca foi atraída pelos mamilos também duros. Mordi-os, com vontade. Primeiro um, depois outro. Ele gritou e agarrou meus cabelos com a boca. Soltei-me e bati-lhe novamente. Desta vez com menos força, mas em seu falo. Impávido, o instrumento do seu orgulho continuou me olhando, duro e desafiante. Rasguei sua camisa e improvisei uma mordaça – não queria correr o risco de ser mordida por aquele tigre ainda indomado. E voltei a tratar de seus mamilos. Desta vez, com dentes, lábios e mãos. Dos olhos dele vinham todos os palavrões que a mordaça escondia. Quanto mais eu o mordia, mais excitado ele ficava. Resolvi então beijar-lhe. Carinhosamente. Deixei minha língua passar por seus lábios separados pela mordaça, bem devagar, enquanto esfregava lentamente meu corpo no seu. Quando percebi que ele fechava os olhos, puxei a corda que o amarrava. Ele deu um grito surdo e seu corpo retesou-se. Ao mesmo tempo, o monumento começou a lubrificar-se. Afastei-me e gargalhei.

Mandei que se sentasse no chão. Olhou-me e por um momento achei que não obedeceria. Mas sentou-se. Abri minhas pernas e agarrei seus cabelos. Depois de esfregar seu rosto entre minhas coxas, tirei-lhe a mordaça. Esfreguei-me em sua boca, languidamente. Devagar e carinhosamente, sua língua foi passeando em minha carne, sua boca me sugando e lambendo num excitante movimento de vai-e-vem. Ele sabia como agradar uma mulher, o cretino! Derreti-me e lambuzei seu rosto numa explosão de líquido quente.

Antes que eu me desmontasse sobre ele, empurrei-o e com o salto da sandália imobilizei-o no chão. Olhei seu corpo bonito estendido no assoalho brilhante. Uma vontade de morder fez com que eu cerrasse os dentes. O falo continuava impávido colosso. A cabeça vermelha brilhava como a pedir minha língua. Ainda não era o momento de dar-lhe o calor da minha boca. Mandei que se virasse, tirasse minhas sandálias e adorasse meus pés. Primeiro, lamber cada dedo. Depois, chupar, devagar e com carinho. Sentei-me sobre a lateral de seu corpo, agarrando-lhe os cabelos com uma mão. Com a outra, explorava-lhe cada pedacinho da pele. Senti-o retrair-se quando passei minha unha entre suas nádegas. Puxei mais os cabelos e, sorrindo, continuei a exploração. Aos poucos, meu dedo indicativo encontrou o caminho. Com um prazer quase orgásmico, enfiei de uma vez. A unha vermelha abriu caminho na virgindade dele. Entre gemidos surdos, sua boca chupou loucamente meu dedão e um jato de esperma molhou minhas pernas. Afundei mais o dedo até que ele tivesse jorrado tudo. E antes que ele relaxasse, mandei que lambesse seu gozo espalhado pelas minhas pernas.

Olhei-o. Seu rosto era um misto de surpresa e satisfação. Seus olhos brilhavam e o corpo relaxado estava coberto de suor. Parecia um deus grego majestoso e saciado. Tirei-lhe todas as cordas e joguei-me sobre a cama. Sem palavras. Meu corpo falava por mim. Ele olhou-me e vi em seus olhos um brilho novo, insinuante, delatando uma sexualidade rude e latente. Eu sabia que não seria fácil domá-lo. Nem queria. Um animal indócil era a medida certa do meu tesão. Lentamente, levantou-se e sua boca procurou minha pele. Foram horas incontáveis de nós dois. Foram várias explorações, inúmeras descobertas. O duelo perfeito entre dois seres iminentemente sexuais.

Sr. P, de cafa passou a parceiro. Eu, de deusa a amante. Por meses nos aventuramos, nos afogamos e nos salvamos em mares nunca dantes navegados.

Florada de abril



Era um fim de tarde de abril. Abril frio e cinza. Voltávamos de uma excursão da escola. Eu e ela, sentadas debaixo de uma mesma manta. O ônibus inteiro dormia ao som da quinta sinfonia de Beethoven – parte da aprendizagem que justificava a exorbitância da mensalidade cobrada pelas religiosas nem tão piedosas.

Semi-acordada, senti um toque tímido e flutuante entrando pelo meu decote. Continuei imóvel enquanto um fio de calor surpreendia meu corpo. Os dedos, como de uma pianista, eram leves e buscavam meu mamilo. Ao tocá-lo, um fio elétrico nos ligou. Meu corpo retesou-se e entre as pernas os músculos dançaram loucamente. Com delicadeza ela colocou entre os dedos o bico do meu seio. A outra mão passeou lentamente pela minha coxa, arrepiando pele e pêlos.

Eu ainda não conseguia entender o que estava acontecendo. Éramos colegas de escola desde sempre - até onde iam minhas memórias infantis. Juntas, brincamos de boneca, lemos os primeiros livros de história e descobrimos o sangramento mensal. Juntas, descobrimos os meninos. Eu, sempre mais entusiasmada com os ainda infantis jogos de sedução. Ela, sempre mais tímida e mais contida. Eu não entendia o que estava acontecendo, nem entendia o que estava sentindo.

A tentativa de entender acabou assim que sua mão, agora ousada, entrou em minha calcinha. Sem nenhum controle sobre o meu corpo, senti que me molhava e molhava. E em seguida, uma calmaria quase divina relaxou todos os músculos. Fechei os olhos, entregue às sensações novas. Quando os abri, ela me olhava. Um pouco assustada, mas firme. Ao ver a minha falta de reação, tirou a mão do meu corpo e levou-a à boca. Ainda me olhando, lambeu lentamente cada um dos dedos.

Fechei novamente os olhos, agora pensando forte no que acabara de acontecer. Era o meu primeiro gozo compartilhado. Até então, eu não sabia o que era dividir o prazer com outra pessoa. Eu era uma menina com os hormônios enlouquecidos, mas sem nenhuma experiência verdadeiramente sexual. Senti-me suspensa. Não sabia se ainda era uma menina. Também não sabia se o que acontecera era uma experiência sexual. Nunca havia lido nada parecido. Abri os olhos e descobri que sequer sabia como tratá-la daí em diante. Apertei-os novamente, como fazia em noites de pesadelo. E mergulhei em águas calmas de um estranho sonho de mulher.

No dia seguinte, assim que a olhei percebi um brilho diferente em seus olhos. Eu não conseguia identificar o sentimento, mas intui que era a meu favor. Testei. Vi a tristeza fazer sombra em seu rosto ao ver-me com Beto – meu namoradinho que ainda não ousara além do beijo. Ainda intuitivamente, percebi meu poder sobre ela. Poder que exerci em várias situações e de todas as formas que me interessaram. Durante o resto do ano.
Muitos, muitos anos depois, eu a reencontrei.

O raso e o profundo



Tinha uma cortina pesada sobre meus olhos. Ficou ali durante quase um ano. A função era fazer-me feliz. Eu acreditava que era feliz. Um dia a cortina despencou. Senti meu próprio gosto como serpente que pica a si mesma. Fui ao profundo do poço.
Levei dois dias para assimilar o amargo: criei e amamentei um cafajeste enquanto acreditava no amor. Agora estava seca. Nada mais havia além das suas mentiras e das manchas roxas no meu corpo.
De dentro do poço minha alma chorava. Mas algo em mim cobrava uma atitude. E eu nem sabia de onde vinha este algo. Amor-próprio? Isto não existia mais em mim. Perguntei-me onde eu perdera o amor a mim. O amor por ele despira-me de pele. Sem pele fiquei vulnerável a mosquitos e cafajestes.
Doía lembrar o quanto eu me arrastara. Fui a cadela dele. Abanava o rabinho por qualquer passadinha de mão na minha cabeça. Carinhos que ficavam cada vez mais espaçados. E foram ficando pesados até virarem dedos tatuados em roxo na minha bunda. Um dia colocou-me uma coleira. Ficou excitado ao me fazer arrastar sobre os joelhos pelo quarto. Várias vezes. Eu cadela, babei de felicidade. Fizemos amor como nunca. E nunca mais fiquei em pé. O sexo foi ficando cada vez mais aviltante. E o meu amor, linearmente constante.
Um dia ele entrou com a mulher quarto adentro. Prendeu-me na cadeira. Eles se comiam, as lágrimas inundavam meus seios nus. Chorava e olhava. Enquanto sua língua deslizava pelo corpo dela, sorria para mim. Dizia palavrões olhando-me nos olhos. E queria que eu abrisse as pernas e gozasse. Como se fosse possível gozar com a própria morte.
Sem aviso, a vergonha tomou meu corpo. Fechei os olhos. A pele incendiou-se e a raiva gritou entre minhas pernas. Um desejo alucinado me fez virar o jogo. Foi assim que a cortina despencou. De olhos limpos eu o vi. E senti o amor dele. Sádico. Doloroso. A negação do que até então eu acreditava sentir por ele. Pela primeira vez eu o entendi. Foi caindo sobre os dois, com dentes e raiva que senti o orgasmo me invadir. Era possível fazer o corpo reagir ainda que o coração estivesse destroçado.
Foi a última vez que o vi. Fechadura nova na porta, celular desligado e coração trancado, me escondi no corpo que indecentemente gritava a perda de seu algoz. Um misto de desavergonhado amor e um irracional desejo de vingar em seu orgulho o que ele negou ao meu corpo. E uma dor que ainda persistia por dentro. Um outro tipo de dor: eu estava me forjando em senhora dos desejos. Estraçalhei dentro de mim os vãos resquícios do amor cantado em versos. Amor sim, mas por escolha.
De olhar aguçado fiz do corpo um instrumento. E passei a separar o joio do trigo. Alguns homens eu amaria. Outros, me amariam. E todos, eu comeria.


Conto publicado no livro Letra Crua na Pele Nua

O insustentável perigo do instante-beijo


Era uma paixão nova. Daquelas que fazem do corpo um imã e ao mesmo tempo uma alucinada hélice de avião perdido na Amazônia. A viagem era um sonho ilícito. Nós, dois corpos suspensos no espaço-tempo de desejos surgidos sem permissão. Ele era meio direção, meio paixão. Eu era toda ele na minha sempre intensa entrega ao inevitável.
De repente veio o beijo. Porque as bocas estavam irresistivelmente juntas na vontade de cada um de nós. E o beijo virou o descontrole do carro. Numa manobra cinematográfica ele conseguiu parar. Meio carro no acostamento. O outro meio, aquele onde estávamos, pendurado sobre o abismo. Uma racionalidade molhada inundou meu corpo e mente. Sem oa menos mexer os olhos pus-me a imaginar a queda. Todas as imagens de acidentes vieram à minha mente. Cambalhotas de carros e incêndios espetaculares fizeram um suor frio molhar-me inteira. A voz dele vinha de longe. Parecia estar a quilômetros de mim. Do corpo encostado ao meu vinha o som da tensão. Em mim, nenhuma ação. Imobilidade até que nada mais existisse.
Com carinho firme ele me tirou do pânico paralisante. Não sei quantos minutos se passaram, sei que foram infinitamente muitos. Eu já conseguia entender que era possível tirar minha vida daquele trapézio sem rede de proteção. Mas ainda não sabia onde encontrar coragem para me mexer. Foi quando me lembrei de quem éramos nós. E do que aconteceria se fôssemos encontrados ali naquela estrada, vítimas unidas de um acidente idiota. Se morrêssemos nada mais importaria. Mas se sobrevivêssemos havia grande chance desta aventura varrer a face da terra, como um furioso e indomável katrina. Entre a cruz e a espada, decidi-me pela vida – e que fosse praquele lugar a condenação pseudo-moralista.
Juntei forças e forjei uma coragem nova. Fui me arrastando lentamente pelo banco enquanto o via, pelo canto dos olhos, sair cautelosamente do carro. Quase entrei novamente em pânico ao imaginar que o carro poderia deslizar comigo ali dentro. Porque morrer com ele era diferente de rolar sozinha por aquele abismo sem fim. Meu destino estava escrito naquelas mãos que seguravam a minha e nos olhos que tiravam os meus do nada à minha frente. Numa submissão insuspeitada, entreguei-me à sua certeza.
Sobrevivi ao susto. Não sobrevivi à paixão. Quebrei asas, arranhei corpo e feri profundamente o tempo na busca de eternizá-la. Vivi intensamente o ilícito daquela viagem, sendo a um só tempo serpente, eva e maçã. Voltei sentindo a vida tatuada, a ferro e fogo, em corpo e alma. Definitivamente.

20 e uns dias de dezembro de um ano qualquer - parte II





Às vezes a timidez me pega em horas especialmente impróprias. Eu ali, cheia de más intenções, saia quase na cintura, mãos no esforço de fundir os corpos, e aquela fluidez conhecida querendo me paralisar. Briguei feio com ela, coloquei determinação na boca e recomecei a exploração. Desta vez, sem piedade. Lábios, língua e dentes abriram caminho no que restava nele de controle da situação.

Afastei-o do meu corpo. Com unhas resvalando pelos pêlos do peito, abri sua camisa. Com as mãos, empurrei-o sobre a cama. Sem palavras. Apenas meu olhar mantendo-o em expectativa. Iniciei o ritual de desnudar-me. Na tentativa de não parecer sensual, acabei exagerando na dureza dos gestos. Surpreendentemente, seus olhos brilharam. Ele não sabe, mas me quer fálica – pensei. Não, ainda não era hora de dar-lhe o que seus olhos pediam. Roupas aos meus pés, surgi puta. Uma mulher sabe ser muitas e sabe ter exatamente o que quer.

Num arroubo de insurgência, ele levantou-se. Em gestos desiguais, desnudou-se. Como um tigre, seus músculos pularam à minha frente. Os músculos vaginais enlouqueceram, uma umidade quente invadiu meus pêlos e a fome nos olhos dele fez-se minha. Segurei-me, quase dolorosamente. Empurrei-o novamente. Desta vez, aos meus pés. O salto da sandália sobre uma de suas coxas fê-lo segurar-se. Palavras não eram necessárias. Minhas intenções estavam em meus gestos. Coloquei sua cabeça na altura da minha virilha. Era o sinal de que as meias deveriam ser tiradas.

A boca dele passeou pelo pequeno pedaço de pele exposta, respirando meu gosto, vivendo o meu cheiro. As mãos, famintas, brigaram com as resistentes e insossas ligas. E o membro começou uma louca e solitária dança, como a preparar-se para uma batalha sem vitória.

Pele e pêlos expostos, eu o fiz cultuar o meu corpo. Apenas boca, explorando cumes e depressões, guiada pelas minhas mãos firmes em seus cabelos. De repente, puxei com força e joguei sua cabeça sobre a cama. Com movimentos felinos, sentei-me sobre ela. Seu corpo virou um retesado e sensível arco de violino e um gemido surdo saiu por entre minhas pernas. Era a senha para o meu primeiro gozo.


20 e uns dias de dezembro de um ano qualquer

- fala gostosa!
Foi exatamente assim que ele atendeu ao celular. Com uma intimidade de quem já me conhecia há anos ou de quem me sentia completamente entregue à sua sedução. Bonito ele era. E gostoso também. Mas consciente demais de seu poder sobre as mulheres. Não precisei ser inteligente demais nem indiscreta demais para descobrir que aquele menino de 30 e poucos anos já era um bem sucedido executivo e ainda mais bem sucedido amante de mulheres casadas. Mas eu não era qualquer mulher casada. Isso ele ainda descobriria.
Encontro marcado, lá fui eu iniciar o ritual de preparação. Lingerie branca fica espetacular na minha pele morena. Cinta-liga também branca. E aquelas meias 7/8 novissimas, compradas exatamente para a ocasião. Sobre tudo isso, o meu uniforme de executiva bem-sucedida e os sapatos de saltos finíssimos e altíssimos. Olhei-me ao espelho. Pronta para o combate. Porque eu não tinha dúvidas, quebrar a resistência daquele menino não seria fácil. Exigiria de mim sedução e inteligência.
Subi as escadas da suíte à frente dele. Obviamente, valorizando o que tinha de melhor: a redundância da bunda! Lá pelo meio da subida, senti o tapa. Carinhoso, como um elogio à minha plástica. Insultuoso para quem queria ser dona da situação. Agüentei firme, exagerando no rebolado.
Ao ver a cama, imediatamente imeginei-o ali, de quatro. Calma, era cedo demais para meus arroubos dominadores. Virei-me e o beijei. Primeiro, a língua passeou pela boca de forma invasiva e exploradora. Senti que ele se surpreendeu. Antecipei-me ao ato de invasão do macho. De forma carinhosa, suguei sua língua, mordiscando-a levemente. Depois os lábios. Macios e bem feitos prenderam minha boca e minha atenção. Tratei-os como mereciam. Lambidas, chupadas e mordiscadas. Aos poucos fui aumentando a pressão dos dentes sobre eles até sentir que ficavam quentes e a respiração mais acelerada. As mãos dele respondiam ao incentivo apertando convulsivamente minha bunda. Seu membro fazendo pressão em minhas coxas. Languidamente fui passando a língua pelo seu rosto até chegar ao ouvido. Caramba, a minha saia já estava quase na cintura e eu estava apenas nas preliminares da dominação. Era preciso parar aquelas mãos antes que eu perdesse por completo o controle da situação.