Vôo no escuro

Éramos dois solitários na imensa solidão de uma sala de bate-papo. Eu, buscando enfeitar os buracos de um momento tedioso. Ele, mascarando a solidão de uma segunda-feira. Resolvi pegar pesado. Cortei as apresentações e fui direto à proposta. Um encontro no escuro. Literalmente. Ele engasgou na demora para responder. Louca – eu me supus no silêncio dele. Louca, queria ser. Embarcou na minha loucura. E o encontro se fez no dia seguinte.

Às 10 da manhã, fui recebida num quarto escuro de um flat que reservei. De imediato, apenas o sentido do olfato. Cheiro de pele. Mãos grandes e silenciosas me puxaram. Senti a parede apertando meu corpo e outro corpo nu invadindo meus sentidos. E o sexto sentido iniciou a comunicação. Era o homem. O que eu queria: forte, ousado, ladrão.

E veio o beijo. Devagar a princípio. Os lábios percorrendo a boca. As línguas brincando uma com a outra. O cheiro dele, misturado a um perfume que eu não conhecia, molhando abundantemente minha calcinha. Sentia a rigidez de seu sexo pulsando contra o meu corpo. Meus instintos reagiram. E a fêmea se soltou em dentes, língua e gemidos.

Com um movimento brusco, me virou. De frente para a parede, senti sua urgência cantar nas minhas costas e a boca prender a nuca. Ele sabia como domar uma fera. Desmanchei-me contra a parede enquanto as roupas me abandonavam. Meu desejo se entregou e seus braços carregaram minha nudez. Agarrada em seu pescoço, rosto grudado em seu peito, me deixei ser devassada pelo tesão.

Literalmente me jogou sobre a cama. Surpresa e estranhamente submissa, esperei o próximo passo. Nunca antes eu dera a um homem aquele poder. Senti o peso do seu corpo marcando o colchão. Enrijeci. Virei corda de um violino afinadíssimo. O coração batia nas pontas dos dedos. De repente, meu cérebro gritou um alerta: o preservativo. O corpo não queria se desprender, já era apenas instinto. A razão insistia em ser pragmática e desmancha-prazer. Entre as duas forças, gemi. Com a língua passeando em seu ouvido, sussurrei-lhe a necessidade da segunda pele. Ele não se abalou. Magicamente colocou em minha mão algo gelatinoso e frio. Estava dando a mim a liberdade de escolha.

Nunca fui boa em lidar com camisinhas, sempre me atrapalhava. Mas o momento exigia meu esforço. Escorreguei a mão entre nossos suores. Encontrei-o duro e pulsante. Enorme. Tanto em largura quanto em comprimento. O medo, ainda inexplicável, e o tesão redobraram. E minha mão tremeu. Eu não conseguia acertar a glande e fazer deslizar o raio da desmancha-prazer. Depois de algumas tentativas, rosto ficando afogueado, me decidi pela boca. Fui descendo pelo corpo, fazendo um caminho de língua e saliva. Os lábios se fecharam naquele monumento. Devagar, fui sentindo seu gosto antes de colocar entre os dentes sua capa solidária. E virei fêmea no cio.

Não nos amamos. Comemo-nos. Fodemo-nos. Entre gemidos, mordidas, gritos e, de certa forma, uma violência contida, engolimos um ao outro. Tudo muito rapidamente como a cheia de um rio em busca da desembocadura. Em pouco tempo estávamos jogados sobre a cama. Exaustos. Um ao lado do outro. Olhei ao redor. Apenas escuridão. Fixei os olhos onde deveria ser o teto. E agora? Que homem é este que me transforma em fêmea faminta de suas iniciativas? Como serão seus olhos? De que cor serão seus cabelos? O sentido da visão estava nas mãos. E foram elas que novamente percorreram o corpo ao meu lado. Lentamente, viram cada nuance. E viram cada músculo se contraindo à sua passagem.

Ainda no comando, segurou meus braços e puxou-me sobre o corpo. Com as pontas dos dedos acariciou meu rosto. Lentamente. Carinhosamente. Saí da aura de magia daquela respiração. Escorreguei corpo abaixo e num movimento felino pulei fora da cama. Não tinha a menor idéia de onde estava o interruptor, mas percebi onde era a janela. Abri as cortinas.


midi: kiss of life - sade