Memórias de uma deusa pagã

Adrenalina

Era um tempo em que eu adorava entrar em salas de bate-papo. Numa noite de puro tédio, resolvida a alguma loucura, vesti armadura na alma e virei Meiga&Perversa. Sempre fui dada a nicks de muitas interpretações. E este era um dos que mais gostava.
Recebi inúmeras mensagens. Escolhi a mais interessante. Após um sucinto olá eu disse: sem apresentações. Não quero saber muito sobre você, quero um encontro, no escuro. Obviamente ele se assustou. Levei alguns minutos para convencê-lo de que não era uma louca assassina e consegui um combinado: ele sairia de SP pela manhã e me esperaria no flat que eu reservaria. O encontro seria literalmente no escuro. Eu queria todos os sentidos, menos a visão.
Acordei excitadíssima. Uma aventura de alto risco. Adrenalina a mil, preparei-me para o encontro com o desconhecido. Imaginei todas as cenas possíveis, repassei meu medo. Ora a imaginação me mostrava esquartejada sobre uma enorme cama, ora abandonada num matagal, ora derretida em sangue num beco qualquer. Mas de alguma forma eu sabia que nada disso aconteceria. A minha intuição sempre fora muito forte e ela apontava para um grande e inusitado prazer. Às nove ele ligou. Estava no aeroporto confirmando o encontro. Dois loucos, rimos muito. Combinamos os últimos detalhes e excitados nos despedimos.
Entrei no elevador com passos decididos. Na porta do flat, a segurança deu uma balançada. Venci-a, empurrando devagar a porta. Mãos grandes me puxaram, fecharam a porta e me prenderam entre um corpo forte e a parede. O coração acelerou – parte medo, parte excitação. Nenhum som além do Ivan Lins cantando baixinho. Nenhum movimento a não ser das mãos e bocas numa busca frenética pelo desconhecido. Um cheiro de desejo encheu o ar. A situação era puro tesão.
O gosto e o cheiro dele acordaram todos os meus diabinhos. Em completa loucura, eu o desnudei. Em silencioso acordo, inverteram-se os papéis. Assumi a iniciativa - a fantasia era minha. Foi um sexo forte, talvez o mais alucinante que já vivi. Cheio de mordidas, gritos, gemidos e gozo animal.
Muito mais tarde, desmanchados sobre os lençóis, iniciamos novas descobertas. Luzes acesas, nossos olhos se encheram um do outro. As mãos, agora carinhosas, passearam pelos corpos. As vozes, enrouquecidas por um novo desejo, trocaram palavras cheias de novas intenções. Aos poucos as afinidades foram se chegando, o encanto crescendo. Uma cumplicidade gostosa criou um novo clima.
O mesmo clima que nos fez amantes ocasionais por dois anos.