Interlúdio



Esbarrar nele todos os dias fazia mal a minha pele. Eram arrepios tão profundos que os poros se abriam incontinentes. Olhá-lo nos olhos, nem pensar. Não sabia o que ele causava em mim, como deixar que ele soubesse? Naquela dia foi assim. Portas do elevador se fechando e suas mãos forçando a entrada. A violência do perfume me nocauteou. Espremida na parede, virei uma coisa qualquer. Sem outra vontade senão a de que o chão se abrisse e meu corpo flutuasse infinitamente pelo poço do maldito elevador. Detesto homens perfumados. Detesto homens empertigados. Detesto este homem. Mentira! Este homem arrasa com a minha estrutura. Boa noite! Se respondi não me lembro. Nem qual foi o movimento seguinte. Meus olhos se arrancaram do chão e desvairaram pelo rosto bronzeado a minha frente. A boca carnuda (cobriria a minha como as luvas que nunca tive) sorriu irônica. Filho da puta. Sabia que me ansiava com sua presença insolente. Minhas unhas doeram a palma da mão. As pernas viraram falsete. Meu anjo da guarda, dourado como o sol, suave como a lua... Merda. Eu não tinha mais nada infantil. Nem oração. Não via seus olhos, mas sabia-os levantando minha saia. A pulsação sob as calças já era visível. A calcinha preta apertou-se contra mim. Enfiada entre as carnes fazia latejar a progesterona nos meus não menos túrgidos membros internos. A mão dele nos botões da parede hipnotizou meus olhos. Parou. Parou? Vai me beijar. Corpo enrijecido, tranquei as pálpebras. A língua tremeu na expectativa da outra língua. Me invade a boca, cretino. Enfia sua língua entre meus dentes e respira a minha excitação! Quero morder seus lábios, te deixar quente e seja o que deus quiser! Invadida foi a saia. Sob ela uma mão se esfregou na calcinha. Lentamente dedilhou lábios, pêlos e pele, colhendo minha entrega felina. A mão em concha entre minhas pernas e o dedo dançando no úmido das minhas cavidades me empurraram ainda mais na parede. Perdão meu Deus. Juro, juro que faço uma novena. Virei líquidos misturados. O xixi comprido, bendito, sagrado. E o caldo quente do gozo lavando a dor das entranhas. Como puta que encontra o primeiro amor, dei-lhe a boca, os seios, o ventre. E as mãos dele, lambuzadas de mim, passearam entre sua boca e meu corpo. Lambuzou dedos, chupou, lambuzou de novo e acariciou com os lábios os mamilos. Tesos, eles se projetaram marrons entre os dentes do homem que eu mal conhecia. Quando o grito ia se soltar na minha boca, a porta se abriu. Deu as costas e saiu. Lambi, suguei, engoli o perfume que ficou ali. E saí para a via crucis de catalogar as contas do meu rosário de loucuras.

Conto publicado no livro Letra Crua na Pele Nua