Fora amor. Destes que prescindem de tradução. Amor marcado de pequenos escândalos internos – explosivos detonados pelo olhar e amansados na dança de falo e fenda. Fora amor gritado no arrepio das peles e na expectativa do mergulho profundo à essência do cio que nos fazia felinos. Fora amor rabiscado com giz em estradas mal-traçadas e apagados de vidas que nunca se encontrariam.
Explodi-me. De amor e de desencantos. Estive viajando em vendavais de areia. O rosto ficou fustigado e a carne indelevelmente marcada. Porque escolhi dunas como convinha àquela irritante e romântica e sedenta vontade de amar. Os sentimentos caíram nos restos de lava – cinzas do amor que inventei entre as capas do livro que não escrevi.
Passei um tempo dentro de mim. Revi conceitos, brinquei de esconde-esconde com a alma, fiz fotos e fatos dos sentimentos. O resultado final não foi ao meu favor. Eu me vi em negativo, preto e branco invertidos, e me assustei com a imagem não querida. Um susto que de tão grande me trouxe de volta à superfície da vida sonhada.
Reagi. Saí alice das maravilhas e caí fractal de todos os espelhos que consegui inventar. Comecei pelo decote. Aquele decote imenso me mudou. Meus seios expostos quase por inteiro. Nada de apenas sugerir. Transformei-os na maçã da concupiscência. E nem me importou que a avidez estivesse em olhares marginalizados. Precisava me sentir puta. Da espécie mais baixa. Queria tirar de dentro a santa que cultivei durante o tempo do amor. Queria rasgar suas vestes e apedrejá-la com minhas vontades mais sórdidas. Estas vontades que só viram palavras quando despidas de toda moralidade cristã. Ou quando vestidas da rusticidade lúbrica de um marinheiro após mês e meio no mar.
Reinventei a verdade, a minha verdade. Fiz do corpo meu instrumento de prazer. Pura e unicamente. Prazer meu e prazer dos meus escolhidos. Nenhum suspiro de amor. Nem olhos que não vêem. Nem historinhas bem contadinhas como peças de quebra-cabeça de imagem conhecida. O tempo agora era de frisson correndo pela carne e explodindo em todas as bocas. Tempo de meninos e meninas na orgia dos sentidos. E de reinações sobre mim e meus pudores idiotas.
Não me divorciei do Amor. Guardei-o para intervalos auspiciosos. Os intervalos em que corpo e alma se encontram inadvertidamente no piscar da insanidade. Mas nada é para sempre. Nem o amor.
Assim surgi-me deusa – inventada ou reinventada das festas de Baco para florescentes orgias pagãs dos tempos modernos. Deusa que convive, prepotentemente, com todas as minhas personas cristãs.