Toda musa tem seu muso. Pensando assim é que olhei mais uma vez a foto colorida que sorria para mim. Pensei nos tantos poemas que os olhos verdes inspiraram. Poemas não escritos, mas poemas declamados pelas mãos sobre o corpo febril. Foram muitas as noites em que, solitária por opção, eu o tive em minha cama. Agora iria provar o cheiro, o gosto e o arrepio da pele.
Meu primeiro olhar foi amplo. Embora enfeitiçada pelos maliciosos raios verdes, as coxas grossas e o peito largo cresceram à minha frente. Meu decote, já um tanto alargado pelo arfar da expectativa, quis romper-se com o intumescimento dos mamilos. Aquele era O homem. Exatamente como o fantasiei, eu o teria. O tempo na mesa do restaurante durou menos do que eu gostaria. Ambos tínhamos pressa, independente das motivações. Eu era a anfitriã e havia reservado a ele a melhor das surpresas.
Ao chegarmos à suíte, ela já nos esperava. Elegante, sóbria e quase tranqüila. Olhou-nos, demorando-se nele. Dei vivas à minha intuição – eles seriam o par perfeito. O olhar dele passeou entre eu e ela, um tanto surpreso, outro tanto excitado. A calça jeans deu sinais de suas urgências. Busquei em mim o tesão por ela. Havia apenas o desejo pelo que ainda me era inusitado.
Taças nas mãos, nos espalhamos pelo quarto. Eu os queria juntos. Sentei na borda da banheira apenas observando os gestos – não me interessavam as palavras trocadas. Intui: ele não sabia por onde começar. Lentamente levantei-me. E ainda mais lentamente fiz o vestido escorregar pelo meu corpo. Cantarolando Janis Joplin, passeei minha semi-nudez aos olhos dos dois até sentar-me entre eles. Entreguei a ela os preservativos e me virei para ele.
O beijo foi profundo, insidioso, longo. Seu cheiro entrou em mim arrasando defesas e destruindo planos. A cama nos recebeu como se nunca tivéssemos saído de lá. Atordoada pelo gosto daquela boca, senti um beijo quente correr pelas minhas costas. As mãos dele arrancaram meu sutiã. As delas, minha calcinha. A sensação era de estar entre dois dínamos que me transformariam em líquido escorrendo sobre a cama.
Quando eu já nem mais me sabia viva, renasci. Renasceu comigo o controle, os planos, o tesão renovado. Eu queria ser servida. Eu os queria meus servos. E os tive como quis. Ele na sua resistência de macho-controlador só fez aumentar o potencial dos meus desejos. Ela, deixando aflorar todo o tesão por mim - reprimido, guardado, escondido durante todos os anos em que trabalhamos juntas – entregou-se às minhas vontades. Amamo-nos tanto, tanto e a vizinhança nem desconfiou de tanta felicidade – diria Chico Buarque.
O trio se desfez ainda no quarto. Eu o levei ao hotel sabendo que ele ainda me queria. Desta vez, ter-me completa e unicamente. Dei-lhe o telefone dela - a mim pouco importava o que ele queria ou faria. Meu tempo com ele terminara. Dele eu queria apenas as melhores lembranças. Dela, a camaradagem de sempre. O que acontecera entre nós já estava no passado. E passado era apenas o grande livro das experiências que embasavam a construção do meu presente.