Prelúdio



Após um dia difícil no trabalho, resolvi dar uma volta na pista do parque. Precisava cicatrizar algumas feridas e recolocar a vida em outros trilhos. Ao passar por uma construção, ouvi exclamações e assovios. Ainda perdida em pensamentos, olhei sem ver um grupo de homens sentado na guia. Um par de olhos verdes cresceu à minha frente. E me paralisou. Por segundos aqueles olhos prenderam os meus, irremediavelmente. Tonta, apressei o passo. Há tempos não me sentia desejada. Sabia-me bonita, mas evitava olhar nos olhos de outro homem que não fosse aquele que deveria chamar de meu. Com esforço, segui em frente. Mas algo mudara com aqueles olhos. A cabeça ficou altiva, os ombros para trás e senti o corpo bamboleante. O coração iniciou um bater frenético como uma borboleta amedrontada.
Sentiu-o ao meu lado. Assim, de repente. Os olhos verdes atrevidos e penetrantes. Ele percebera a reação do meu corpo e começara a seguir-me. Tensa, nada fiz além de fingir ignorá-lo. Pensei em minha mãe e m seus conselhos quando eu ainda era uma adolescente. Lembrei-me de todas as promessas feitas ao altar. Tentei uma oração, mas não consegui passar da segunda frase.
O homem virou voz. Voz que falava de desejos em palavrões, voz que mexia terrivelmente com tudo em mim. Voz que entrava no corpo e virava arrepio na pele. Aumentei o ritmo dos passos. O coração virou gazela espavorida. E o corpo, traiçoeiro, pedia a voz.
A tarde virou noite e encontrou-me numa cama de hotel. Hotel de centro da cidade. Cama de lençóis rústicos e cortinas de um azul usado. Cheiro de roupa lavada com sabão barato. Ao meu lado, um corpo moreno - puro músculos e cheiro de cio. Mãos calosas passavam carinhosamente sobre meu corpo. Uma voz carregada de sensualidade falava baixinho de amor. Os olhos verdes agora me olhavam carinhosos e amantes. Eu o olhava e gostava de olhar. Não sabia mais quem eu era. Sentia-me uma espiral infinita. Como se fosse volátil e pairasse rodopiando sobre mim mesma. O corpo tinha um ardor constante. Doía lá dentro. Tanto que me entreguei. Tomou minha boca como se dele fosse desde sempre. Dentes mordiscando meus lábios, língua provocando língua, o cheiro de cio entrando-me pelos poros. Minhas unhas responderam riscando suas costas, enquanto os dedos reconheciam o poder dos músculos. Estava felina. Os arrepios iam e vinham. No sangue, a excitação corria um passo atrás do jorro de adrenalina. Senti-me visceralmente líquida. E com uma vontade louca de derramar-me sobre ele.
Era a primeira vez que eu morria e vivia convulsivamente. Um gozo atrás do outro. A língua dele colhendo pequenos jatos, as mãos se alternando nas minhas cavidades e o cheiro do meu cio revolucionando ar e vontades. E eu, amante. De dentes, língua, corpo. Como nunca fora.
Deitada em seu abraço, me senti verdadeiramente amada. Embora tivesse me transformado numa fêmea de puro instintos e ali imperasse a libido, nunca me sentira tão amada. Aquele homem soubera amar cada gemido, cada espasmo, cada grito saído de mim. E me fizera sentir generosamente fêmea.
O som do celular jogou-me na realidade. Uma vergonha impiedosa me fez correr para o banheiro. Vesti-me apressada e voltei ao quarto. Sem olhar os olhos verdes, tirei da carteira uma nota e estendi a ele. Da cama, ele apenas me olhava. Mudo. Tranqüilo. Moreno. Olhei-o. Um sorriso brincava em seus olhos. Com uma inacreditável secura na boca me senti novamente paralisada. Aquele homem tinha o poder de me transformar. De fazer nascer em mim uma avidez de vida como nunca sentira. Devagar ele estendeu a mão. Ignorando a nota, fechou os dedos em meu pulso. Sem forçar, começou a acariciar a pele com o polegar. Olhos prendendo olhos. Os grilhões estavam ali. Naquele insondável mar verde-esmeralda.
Percebendo o desespero em meus olhos soltou meu braço. Mas seus olhos continuaram prendendo os meus. E eu ali, parada, trêmula, completamente desconcertada. Lentamente ele se levantou. No instante seguinte eu o mordia, beijava, agarrava. E ele era apenas a fortaleza que me mantinha ainda em pé. Por pouco tempo. Até o chão receber nossos corpos. E todos os cantos daquele quarto serem batizados com o nosso ardor. O tempo parou e jogou no passado os véus da educação cristã. Fêmea de um animal qualquer, era tudo em que me transformei.
Muito tempo depois, desci as escadas. Lágrimas teimosas molharam meu rosto. Não era choro de arrependimento. Nada em mim se arrependia. Em passos lentos, atravessei a rua e fiz o caminho de volta para casa. Volta à vida onde meu corpo não cabia mais. Nem meus conceitos. O homem que deixara no hotel, eu nunca mais veria.  Mas dele jamais me esqueceria.  

Conto publicado no livro Letra Crua na Pele Nua